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A importância da avaliação económica do know-how

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Num contexto organizacional onde os ativos intangíveis revelam cada vez mais preponderância, o know-how - ativo intangível por excelência - assume um papel central na criação de valor. Mais do que os equipamentos técnicos ou as infraestruturas, são frequentemente o conhecimento técnico, os processos proprietários e a experiência acumulada que permitem às empresas diferenciar-se no mercado.

Porém, avaliar economicamente o know-how continua a ser um desafio complexo, exigindo rigor na identificação dos métodos de calculo, na análise dos resultados e na compreensão profunda das variáveis envolvidas.

 

O que é o know-how e porquê importa avaliá-lo?

O know-how é definido como o conjunto de conhecimentos técnicos, práticas, metodologias e competências que permitem a uma organização desenvolver produtos, serviços ou processos com eficiência e vantagem competitiva. Pode estar formalizado em documentação técnica, algoritmos, procedimentos internos, manuais operacionais, especificações, bases de dados técnicas ou outros suportes confidenciais, ou assumir natureza tácita, quando resulta da experiência dos colaboradores, das rotinas organizacionais ou da forma como determinados processos são executados.

A sua avaliação económica torna-se relevante em diversos contextos, nomeadamente, em operações de fusão e aquisição , no licenciamento e na transferência de tecnologia, em projetos de I&D, casos de contencioso, rondas de financiamento, etc. Sem uma avaliação adequada, existe o risco de sobrevalorizar ou subvalorizar um ativo, o que pode ser determinante para o sucesso de uma operação.
  
Do ponto de vista jurídico, importa ainda distinguir know-how de segredo comercial. Nem todo o know-how beneficia automaticamente de proteção jurídica enquanto segredo comercial. Para tal, a informação deve, em termos gerais, ser secreta, ter valor comercial pelo facto de ser secreta e ter sido objeto de medidas razoáveis de proteção da confidencialidade pelo respetivo titular, designadamente através de acordos de confidencialidade, controlo de acessos, políticas internas, segregação de informação ou restrições contratuais de utilização.

 

Desafios na avaliação do know-how

Ao contrário dos ativos tangíveis, o know-how não tem um mercado claro nem preços de referência que sejam facilmente observáveis. É muitas vezes único, podendo depender do contexto organizacional e ter pouca capacidade para se replicar, além do seu valor estar associado a benefícios futuros incertos.

Por estas razões, a avaliação deve assentar em modelos económicos robustos e numa análise multidimensional, capazes de identificar um valor adequado para o ativo em estudo.

 

Principais metodologias de avaliação
Existem essencialmente três metodologias clássicas utilizadas na avaliação económica do know-how:

  1. Abordagem do custo

    Baseia-se no custo de reprodução ou substituição do know-how. Inclui despesas de I&D, tempo de desenvolvimento e recursos envolvidos. Embora útil como referência mínima, não capta o valor estratégico nem o potencial de geração de receitas.

  2. Abordagem de mercado

    Assenta na comparação com transações similares. É limitada pela escassez de dados comparáveis, especialmente em tecnologias inovadoras ou altamente especializadas.

  3. Abordagem do rendimento

    Baseia-se nos fluxos de caixa futuros gerados pelo know-how. É a mais relevante, pois capta o valor económico real, ainda que dependa fortemente de estimativas e pressupostos.

 

Variáveis a ter em conta na avaliação económica do know-how

A robustez da avaliação depende da correta identificação e quantificação das variáveis que influenciam o seu valor: 

  1. Potencial de geração de receitas

    O valor do know-how está ligado à sua capacidade de gerar receitas futuras. Devem analisar-se por isso, as aplicações comerciais possíveis, a dimensão do mercado alvo, a taxa de adoção esperada, ou até uma possível vantagem competitiva proporcionada.2. 

  2. Grau de inovação e diferenciação

    Know-how inovador tende a ter maior valor, especialmente se resolve problemas técnicos complexos, introduz melhorias significativas de desempenho ou custo, ou se cria barreiras à entrada de alternativas no mercado.

  3. Maturidade tecnológica

    Tecnologias em fases iniciais (nível de maturidade tecnológica baixo) têm maior incerteza e risco, o que impacta negativamente no valor. Por outro lado, tecnologias maduras têm maior previsibilidade, mas podem oferecer menor potencial de crescimento

  4. Proteção legal

    Os mecanismos de proteção (por exemplo patentes ou segredos industriais) são cruciais, dado que reduzem o risco de imitação, prolongando a capacidade de criação de valor e aumentando a atratividade para investidores.

  5. Dependência de recursos humanos

    O Know-how fortemente dependente de indivíduos específicos (know-how tácito) apresenta maior risco, porque pode ser difícil de transferir e pode perder-se com a saída de colaboradores, exigindo por isso mecanismos de retenção ou formalização complexos. 

  6. Custos de implementação e integração

    Implementar novo conhecimento implica custos adicionais, em particular, a adaptação de processos já existentes, formação de equipas ou investimento em equipamentos. Neste sentido, estes custos devem ser considerados na avaliação líquida do benefício económico.

  7. Tempo de vida útil

    O valor do know-how depende do período durante o qual gera benefícios, devido, entre outros itens, à obsolescência tecnológica, à evolução do mercado ou à entrada de soluções concorrentes.

  8. Risco tecnológico

    Inclui a probabilidade de falha no desenvolvimento ou implementação, devido por exemplo à incerteza científica ou à dependência de fatores externos. Este risco deve ser refletido na taxa de desconto ou em cenários alternativos.

  9. Risco de mercado

    Mesmo que a tecnologia funcione, a mesma pode não ser adotada devido à falta de aceitação pelos clientes, falta de competitividade ou devido a mudanças legislativas.

  10. Escalabilidade

    O Know-how aplicado em múltiplos mercados ou produtos tende a ter maior valor, devido à sua reprodutibilidade, a custos marginais reduzidos ou ao potencial de expansão internacional.

  11. Sinergias com ativos existentes

    O valor pode ser maior se houver complementaridade com tecnologias já detidas, capacidade produtiva ou rede comercial existente.

  12. Alternativas disponíveis

    A existência de soluções concorrentes ou substitutas influência o valor e, por consequência, pode reduzir o poder de mercado, limitando o preço que pode ser cobrado, ou aumentando a pressão competitiva.

 

Contextualização e boas práticas

Um especto crítico na avaliação do know-how é o contexto. O mesmo ativo pode ter valores diferentes, dependendo de quem o utiliza, em que mercado e com que objetivos estratégicos.

Uma tecnologia pode ter pouco valor isoladamente, mas ser valiosa quando integrada numa cadeia de valor específica.

Para garantir uma avaliação credível e defensável, recomenda-se o acesso a documentação técnica variada que suporte a escolha dos métodos de avaliação mais adequados, para una análise clara dos pressupostos e o estabelecimento dos vários cenários possíveis.

A avaliação económica do know-how é um processo complexo, mas essencial num contexto onde os ativos intangíveis são cada vez mais determinantes. É uma análise estratégica que exige integração de inúmeros fatores permitindo maximizar o valor em negociações, reduzir riscos e alinhar expectativas. Ignorar ou simplificar este processo pode levar a decisões pouco fundamentadas e à destruição de valor. Uma abordagem estruturada, documentada e juridicamente consistente permite transformar o know-how num ativo estratégico, mensurável e defensável em contextos negociais, contabilísticos, fiscais ou litigiosos.     
 

Fontes

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CFA INSTITUTE – Investor perspectives on intangible assets. Charlottesville: CFA Institute Research Foundation, 2024. https://rpc.cfainstitute.org/sites/default/files/docs/surveys/intangibl…

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https://www.ifrs.org/content/dam/ifrs/resources-for/academics/research-…
RAMOS-RODRIGUEZ, A. R.; GARCÍA-MORALES, V. J.; MARTÍN-ROJAS, R. – Intellectual and social capital in opportunity recognition: A knowledge-based perspective. arXiv preprint. 2024. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2401.17448

GEORGIOU, A. – Alignment of IAS 38, IVS 210 and ISA 620: Implications for intangible asset valuation. In: Enterprise and Digital Transformation. Cham: Springer, 2025.
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IFRS FOUNDATION – Intangible assets: Academic literature review. Londres: IFRS Foundation, 2024.

 https://www.ifrs.org/content/dam/ifrs/resources-for/academics/research-citations/intangible-assets-literature-review-april-2024.pdf

RAMOS-RODRIGUEZ, A. R.; GARCÍA-MORALES, V. J.; MARTÍN-ROJAS, R. – Intellectual and social capital in opportunity recognition: A knowledge-based perspective. arXiv preprint. 2024. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2401.17448